{"id":769,"date":"2023-08-18T00:24:46","date_gmt":"2023-08-18T03:24:46","guid":{"rendered":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/?p=769"},"modified":"2023-08-18T00:24:48","modified_gmt":"2023-08-18T03:24:48","slug":"afinal-o-que-e-acessibilidade-perrengues-e-reflexoes-de-uma-pcd-em-um-festival-de-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/?p=769","title":{"rendered":"Afinal, o que \u00e9 acessibilidade? Perrengues e reflex\u00f5es de uma PCD em um festival de m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<p>CLEOdomira Soares dos Santos       (Cascavel &#8211; Pr &#8211; Brazil)<\/p>\n<p>Pensar em inclus\u00e3o \u00e9 urgente, e os grandes eventos culturais d\u00e3o uma medida do desafio.<br \/>\nEduca\u00e7\u00e3o e respeito s\u00e3o fundamentais para repensar as estruturas oferecidas pelas organiza\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Shows e festivais: discutir acessibilidade para pessoas com defici\u00eancia e neurodivergentes \u00e9 urgente. Estamos pr\u00f3ximos da inclus\u00e3o? (Mauricio Santana\/Getty Images)<br \/>\nFernanda Bastos=Publicado em 18 de abril de 2023 \u00e0s, 14h01.<\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 PCD?\u201d, perguntou um funcion\u00e1rio para mim e minha irm\u00e3 ao pedirmos informa\u00e7\u00f5es sobre a \u00e1rea reservada para pessoas com defici\u00eancia, pr\u00f3ximo ao Palco Chevrolet, um dos maiores do festival Lollapalooza. Sil\u00eancio. Vejo a sensa\u00e7\u00e3o confusa no semblante da minha irm\u00e3. \u201cPor onde come\u00e7ar a explicar?\u201d, pensei. A pergunta simples demonstrou certo despreparo por parte do profissional do evento, e essa foi apenas uma das muitas aventuras que n\u00f3s enfrentar\u00edamos naqueles dias.<\/p>\n<p>O que era um final de semana de curti\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica para muitos, para outros foi mais um calv\u00e1rio, com longas caminhadas, tombos em cadeiras motorizadas, machucados e, principalmente, falta de acessibilidade.<\/p>\n<p>Eu estava animada para o Lollapalooza. Apesar de ter crescido frequentando shows, esse era o meu primeiro grande festival. Havia comprado os ingressos em setembro do ano passado e estava empenhada em coletar boas mem\u00f3rias ao ver artistas que admiro. Mas, conforme a data foi se aproximando, a anima\u00e7\u00e3o para o evento deu espa\u00e7o para uma antecipa\u00e7\u00e3o preocupada.<\/p>\n<p>Como pessoa com uma defici\u00eancia f\u00edsica chamada paralisia cerebral, tenho o costume de checar a acessibilidade oferecida antes de ir a eventos culturais como feiras e shows, para saber com o que estou lidando.<\/p>\n<p>E a falta de informa\u00e7\u00f5es sobre o acesso s\u00f3 fortalecia a ideia que o final de semana n\u00e3o seria s\u00f3 sobre ver bandas e artistas que gostava.<br \/>\nContinua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p>Antes de chegar o dia 24 de mar\u00e7o, conversei com algumas pessoas do meu conv\u00edvio, que j\u00e1 tinham tido experi\u00eancias em eventos maiores para ter algumas dicas sobre como eu \u2013 enquanto PCD \u2013 poderia tirar o maior proveito do festival.<\/p>\n<p>Ali, compartilhei um pouco dos meus receios e preocupa\u00e7\u00f5es, e quanto mais eu conversava, mais tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que, talvez, outras pessoas neurodivergentes ou com defici\u00eancia tamb\u00e9m experimentaram situa\u00e7\u00f5es parecidas. A falta de acessibilidade \u00e9 um problema estrutural, e est\u00e1 longe de ser uma viv\u00eancia s\u00f3 minha.<\/p>\n<p>Assim como eu, Vallentina Pellicer tamb\u00e9m foi ao Lollapalooza deste ano. Diferentemente de mim, uma novata, a banc\u00e1ria frequenta o festival h\u00e1 cinco anos<\/p>\n<p>Pellicer tem uma defici\u00eancia que pode ser considerada invis\u00edvel, escoliose, o que torna a sua experi\u00eancia um pouco diferente da minha.<\/p>\n<p>A jovem de 23 anos, comentou que, ao sentar na cadeira reservada para pessoas com defici\u00eancia nos transportes p\u00fablicos de S\u00e3o Paulo, por exemplo, tem de lidar com olhares de julgamento por n\u00e3o ter algo fisicamente exposto que comprova a condi\u00e7\u00e3o, quase como uma chancela para ocupar aquele local, e em eventos culturais n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos, Pellicer comenta que o Lollapalooza conta com cadeiras motorizadas para atender as pessoas com defici\u00eancia ou mobilidade reduzida. Mas a situa\u00e7\u00e3o se complica quando o festival acontece em um local com morros e barrancos. Neste ano, observei que haviam passarelas na grama para que as cadeiras pudessem transitar. Mas, ao passo que a tarde passava e os shows da noite come\u00e7avam, ficava muito dif\u00edcil circular.<\/p>\n<p>Eu e Pellicer usamos as cadeiras para nos locomover, e elas ajudam bastante, mas n\u00e3o \u00e9 uma ferramenta acess\u00edvel para todos. Vi pessoas gordas tendo dificuldade para sentar na cadeira, por exemplo. Al\u00e9m disso, n\u00f3s duas acabamos caindo com a cadeira. Eu, uma vez, por conta de uma lombada que protegia o cabeamento no ch\u00e3o; ela, tr\u00eas vezes, por conta das inclina\u00e7\u00f5es do local.<\/p>\n<p>No caso dela, um tombo como esse pode ser perigoso visto que ela tem pinos e precisa proteger a coluna.<\/p>\n<p>No ano passado, a influenciadora e criadora de conte\u00fado, Lorena Eltz, de 22 anos, compareceu ao mesmo festival. Eltz, que tem uma doen\u00e7a cr\u00f4nica chamada doen\u00e7a de Crohn e \u00e9 uma pessoa ostomizada, precisa principalmente de banheiros acess\u00edveis para que possa fazer a higieniza\u00e7\u00e3o correta da sua bolsa de ostomia. Lorena conta que a caminhada entre a esta\u00e7\u00e3o e o os palcos do evento, por ser muito longa, fez com que o adesivo da bolsa desgrudasse lentamente.<\/p>\n<p>E, ao n\u00e3o encontrar banheiros acess\u00edveis no evento, sua bolsa acabou vazando. Com isso, Lorena n\u00e3o conseguiu aproveitar o festival: \u201cComentei com as pessoas que estavam comigo que queria ir embora, antes do show acabar, uma pessoa que nem conhecia me emprestou uma roupa para trocar, eu fui embora chorando\u201d, relembra.<br \/>\nMat\u00e9ria Lollapalooza<\/p>\n<p>Experi\u00eancia PCD em festivais: a influenciadora Lorena Eltz, que fala sobre sa\u00fade, bem-estar e inclus\u00e3o, no Lollapalooza (Lorena Eltz\/Arquivo pessoal\/Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>Mas, do outro lado da moeda, a riograndense Lorena comenta que teve uma boa experi\u00eancia no Audit\u00f3rio Ara\u00fajo Vianna, em Porto Alegre, onde tem fila preferencial, rampas e outras estruturas para acessibilidade. Apesar de ser um pouco antigo, o local conseguiu proporcionar uma boa experi\u00eancia desde a entrada at\u00e9 a sa\u00edda. Tamb\u00e9m ressaltou o Allianz Parque em S\u00e3o Paulo, com shows da produtora Live Nation.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o vou dizer que s\u00e3o sempre shows acess\u00edveis, mas s\u00e3o lugares um pouco melhores, sinto que eles d\u00e3o um cuidado para venda dos ingressos PCD, por exemplo\u201d. Valentina foi ao Allianz Parque no show do cantor ingl\u00eas Harry Styles. \u201cDesde o momento que eu entrei at\u00e9 chegar na \u00e1rea PCD, todos sabiam com quem falar, onde ir, isso ajuda muito. Acabei n\u00e3o comprando o ingresso PCD porque ele j\u00e1 tinha acabado e n\u00e3o tive problema nenhum\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Com in\u00fameros shows no Brasil, havia muita expectativa para a vinda do Coldplay com a turn\u00ea Music of the Spheres e para Victor Fontenelle, que costuma ser um frequentador ass\u00edduo de shows e eventos culturais, n\u00e3o era diferente.<\/p>\n<p>O jovem de 26 anos, tem o diagn\u00f3stico do espectro austista (TEA). Victor tem hipersensibilidade a ru\u00eddos, luzes e contato f\u00edsico, al\u00e9m de ser desafiador entender o comportamento das outras pessoas e demonstrar suas necessidades. \u201cEsperar e n\u00e3o saber o que vai acontecer me deixa ansioso e estressado, com isso, tenho agita\u00e7\u00e3o motora e dificuldade de parar de repetir as frases que gosto de falar\u201d, disse Fontenelle.<\/p>\n<p>Foi no est\u00e1dio do Morumbi que Fontenelle e sua fam\u00edlia encararam o desafio de curtir o show da banda brit\u00e2nica. \u201cNo show, n\u00e3o havia nenhuma sinaliza\u00e7\u00e3o e foi um cambista que pediu ajuda para um policial para que eu e minha fam\u00edlia entr\u00e1ssemos sem passar na multid\u00e3o\u201d, compartilhou. Fontenelle conta que um bombeiro os acompanhou, mas que o espa\u00e7o fora da pista tinha uma visibilidade ruim.<\/p>\n<p>Por isso, eles optaram por arriscar e ficar na pista. \u201cMinha m\u00e3e conversou com as pessoas que estavam ao nosso redor, explicou como eu reagia e todos foram muito legais e tomaram cuidado para eu ficar tranquilo. Mas j\u00e1 fui em muitos shows e em nenhum encontramos um espa\u00e7o para pessoas com autismo\u201d.<br \/>\nMat\u00e9ria Lollapalooza<\/p>\n<p>Show do Coldplay: Victor Fontenelle (\u00e0 direita) curte o show com sua fam\u00edlia (Victor Fontenelle\/Arquivo pessoal\/Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>Hamanda Matos, de 24 anos, tem m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o nos dedos das m\u00e3os e dos p\u00e9s. Apesar da sua defici\u00eancia f\u00edsica, a advogada natural de Igarap\u00e9-A\u00e7u (PR) conta que tem bastante autonomia, mesmo precisando de adapta\u00e7\u00f5es em determinados cen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Matos foi ao show do artista coreano Jay B, do grupo GOT7. \u201cApesar da confus\u00e3o dos staffs quanto \u00e0 fila preferencial, ela foi sanada com o aux\u00edlio de uma colega que organizou as pessoas com defici\u00eancia, idosos e neurodivergentes\u201d, relembrou.<\/p>\n<p>A pessoa que ajudou a organizar a fila do show foi Mariana Mollo, de 22 anos, que tamb\u00e9m compartilhou sua experi\u00eancia. A jovem de Americana (SP) recebeu recentemente o diagn\u00f3stico do transtorno do espectro autista de baixo suporte e, ao contr\u00e1rio do que possa parecer, Mollo era apenas uma espectadora do evento \u2013 assim como Matos \u2013 mas acabou se envolvendo na organiza\u00e7\u00e3o pela falta de estrutura oferecida na oportunidade pela casa de shows Vibra S\u00e3o Paulo, em Santo Amaro.<\/p>\n<p>\u201cDepois de organizarmos a fila, a equipe n\u00e3o permitiu que as PCD entrassem antes.<\/p>\n<p>Muitas pessoas ali n\u00e3o poderiam correr, tinham idosos, ent\u00e3o liberar as filas ao mesmo tempo poderia ser perigoso\u201d, disse Mollo, que passou a frequentar mais eventos culturais como shows, apresenta\u00e7\u00f5es e eventos geek como o Anime Fest, depois de se entender uma pessoa neurodivergente. Para ela, o diagn\u00f3stico foi essencial para que pudesse driblar as crises, entender os comportamentos e como os sintomas, entre eles a disfonia sonora, afetam sua vida.<\/p>\n<p>Matos explica que, internamente, os f\u00e3s, espectadores e acompanhantes foram divididos em quatro setores na pista premium, sendo a \u00e1rea PCD entre o palco e a grade, onde a \u00fanica separa\u00e7\u00e3o entre o artista e os f\u00e3s eram os seguran\u00e7as.<\/p>\n<p>Ali, foram disponibilizadas cadeiras para que as pessoas com defici\u00eancia pudessem se acomodar melhor. Matos comenta que para as pessoas com defici\u00eancia visual, esse layout foi importante porque permitiu uma visibilidade alta, sem estruturas no local.<\/p>\n<p>Assim como para os f\u00e3s com defici\u00eancia auditiva que conseguiram ouvir a passagem de som com qualidade.<\/p>\n<p>As cadeiras fizeram diferen\u00e7a para Matos, que se sentiu segura ao n\u00e3o machucar seus p\u00e9s e n\u00e3o perder a vis\u00e3o do palco, mesmo sentada.<\/p>\n<p>Mas Mollo traz um contraponto: \u201cTinham pistolas de confete bem na dire\u00e7\u00e3o da \u00e1rea PCD, tinham pessoas com epilepsia e autismo ali. Meu receio era de algu\u00e9m ter alguma crise por conta da situa\u00e7\u00e3o\u201d, comentou Mollo.<\/p>\n<p>\u201cAcho que \u00e9 o que eu mais passei\u201d, disse a influenciadora carioca Marina Melo, que tem fraqueza muscular (AME II), quando perguntei sobre as experi\u00eancias ruins em shows e festivais.<\/p>\n<p>Quando tinha 8 anos, Marina teve uma experi\u00eancia muito ruim na BGS (Big Game Show), a conven\u00e7\u00e3o de games e cosplay. \u201cMeus pais tiveram que me carregar como seguran\u00e7as\u201d, comenta, por conta da lota\u00e7\u00e3o do evento e falta de profissionais para acompanh\u00e1-los.<br \/>\nMat\u00e9ria Lollapalooza<\/p>\n<p>\u201cAcho que \u00e9 o que eu mais passei\u201d, disse a influenciadora Marina Melo sobre experi\u00eancias ruins em eventos culturais (Marina Melo\/Arquivo pessoal\/Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>Outra experi\u00eancia da influenciadora de maquiagem foi no show do cantor pop J\u00e3o, que aconteceu no Qualistage, ligado ao Via Parque Shopping, no Rio de Janeiro: \u201cA \u00e1rea PCD da casa de show, era em uma altura muito baixa onde, se voc\u00ea tivesse sentado em uma cadeira como eu, n\u00e3o dava para ver nada. Era um cantinho. A melhor \u00e1rea de PCD era de um ingresso mais caro.<\/p>\n<p>Eu chamei o gerente da casa e falei \u201cn\u00e3o tem como eu assistir o show daqui porque n\u00e3o d\u00e1 para ver nada\u201d. Eles a colocaram na outra \u00e1rea PCD, que tinha uma altura melhor mas que era muito distante do palco, e s\u00f3 contava com dois espa\u00e7os para pessoas com defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Eu, Valentina, Lorena, Victor, Amanda, Mariana e Marina somos s\u00f3 algumas das milhares de hist\u00f3rias espalhadas pelo pa\u00eds. No Brasil, h\u00e1 mais de 17 milh\u00f5es de pessoas com defici\u00eancia, de acordo com levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).<\/p>\n<p>Mas como discutir acessibilidade quando pensamos em corpos, hist\u00f3rias e experi\u00eancias t\u00e3o diversas como as nossas?<\/p>\n<p>O que \u00e9 acessibilidade?<br \/>\nEm uma conversa, a superintendente de Pr\u00e1ticas Assistenciais da Associa\u00e7\u00e3o de Assist\u00eancia \u00e0 Pessoa com Defici\u00eancia (AACD), Dra. Alice Rosa Ramos, trouxe uma defini\u00e7\u00e3o interessante sobre o que seria acessibilidade: \u201c\u00c9 a possibilidade de ir e vir de forma independente, ou dependendo de outra pessoa, mas que seja f\u00e1cil. A pessoa com defici\u00eancia tem que conseguir se deslocar, ela tem o direito de se deslocar em todos os ambientes\u201d, disse. \u201cEnt\u00e3o, acessibilidade \u00e9 tornar poss\u00edvel que a pessoa v\u00e1 e volte para o lugar que quiser, sem estar restrito e n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista de lugar f\u00edsico, mas de acesso \u00e0 tecnologias, que facilitem a vida e que d\u00ea independ\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 Hamanda Matos, trouxe uma reflex\u00e3o bastante importante para a discuss\u00e3o: \u201cComo jurista, concordo com o conceito legal de acessibilidade sendo qualquer pr\u00e1tica ou adapta\u00e7\u00e3o que proporcione \u00e0s pessoas com defici\u00eancia o exerc\u00edcio aut\u00f4nomo e seguro das suas atividades.<\/p>\n<p>Acredito que ele consegue descrever genericamente o que um ambiente acess\u00edvel precisa apresentar\u201d. As leis que asseguram quest\u00f5es ligadas \u00e0 acessibilidade s\u00e3o as seguintes: a Lei Brasileira de Inclus\u00e3o da Pessoa com Defici\u00eancia, Lei Nacional n\u00ba 13.146, e Lei de Acessibilidade no Brasil, Lei N\u00ba 10.098.<\/p>\n<p>A partir dessas afirma\u00e7\u00f5es, fica claro alguns pontos em comum, como o direito \u00e0 autonomia e ao pleno exerc\u00edcio de ir e vir. N\u00e3o \u00e9 algo que cobramos por comodidade, mas por ser nosso direito, enquanto pessoas com defici\u00eancia. Os eventos precisam considerar pessoas com defici\u00eancia f\u00edsica, auditiva, visual, defici\u00eancias invis\u00edveis e, tamb\u00e9m, as pessoas neurodivergentes. Cada grupo tem uma necessidade diferente e todos devem ser inclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Para Valentina, acessibilidade \u00e9 n\u00e3o ter sua defici\u00eancia questionada quando ela ocupa os lugares reservados em eventos. J\u00e1 para Victor, acessibilidade \u00e9 ter um port\u00e3o espec\u00edfico para entrar com o acompanhante al\u00e9m de ter um espa\u00e7o reservado para pessoas que t\u00eam dificuldade com contato f\u00edsico.<\/p>\n<p>\u201cEu vejo acessibilidade como um momento de paz para a pessoa com defici\u00eancia, um momento onde a pessoa pode simplesmente n\u00e3o se preocupar porque aquele espa\u00e7o est\u00e1 totalmente preparado para lidar com aquelas situa\u00e7\u00f5es\u201d, afirma Mollo.<\/p>\n<p>\u201cPara mim, \u00e9 tornar a mesma coisa poss\u00edvel para diferentes pessoas, porque eu acho que do mesmo jeito que outra pessoa consegue utilizar um banheiro, n\u00f3s precisamos, talvez, de um banheiro diferente e isso n\u00e3o \u00e9 algo a mais, sabe?<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 uma forma diferente para eu poder utilizar o banheiro da mesma forma, com o mesmo conforto, que uma pessoa sem defici\u00eancia\u201d, afirma Eltz.<\/p>\n<p>Os abismos criados pela falta de acessibilidade<br \/>\nLorena conta que um dia depois de passar por todo o constrangimento que enfrentou no Lollapalooza, as pessoas n\u00e3o param para analisar que h\u00e1 um dano para a sa\u00fade mental. Para ela, um medo foi criado por conta da vulnerabilidade e humilha\u00e7\u00e3o envolvidas.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o gosto de ter essa lembran\u00e7a, n\u00e3o queria que tivesse acontecido. \u00c9 muito f\u00e1cil que a gente queria se trancar em casa, sem sair, e isso \u00e9 muito prejudicial para n\u00f3s. A experi\u00eancia no festival foi ruim, tive um dia ruim, mas e todos os dias depois disso?\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Lorena disse que, um dia depois do festival, ela teve uma crise de p\u00e2nico que a encaminhou para a emerg\u00eancia e que desenvolveu muitos medos:<\/p>\n<p>\u201cQuando eu me deparei com um lugar realmente sem nenhuma acessibilidade, entendi que a quest\u00e3o n\u00e3o era comigo, mas por muito tempo, pensei que tinha sido eu.<\/p>\n<p>E tinha aquele pensamento \u2018Para qu\u00ea que eu fui? Nem \u00e9 um lugar que eu deveria ir, nem um lugar que eu deveria estar. Eu me coloquei nessa situa\u00e7\u00e3o\u2019\u201d.<\/p>\n<p>A culpa, o medo e, por consequ\u00eancia, at\u00e9 a exclus\u00e3o social s\u00e3o resultados e impactos diretos da falta de acessibilidade na vida das pessoas com defici\u00eancia. No caso da Lorena, e no meu caso quando ca\u00ed da cadeira motorizada, existe uma vergonha e exposi\u00e7\u00e3o envolvidas que n\u00e3o deveriam existir.<\/p>\n<p>Conversando com Lorena, Victor, Marina e todas as pessoas com quem discuti acessibilidade para fazer esse texto, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que a falta de acessibilidade nos coloca em ambientes prejudiciais nos fazendo reproduzir e internalizar preconceitos e estere\u00f3tipos com os quais temos que lutar todos os dias, porque nascemos em uma sociedade capacitista, que tem preconceitos sobre a pessoa com defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Como (re)pensar ambientes acess\u00edveis<br \/>\nDepois de entender o que \u00e9 acessibilidade, ouvir os relatos e tamb\u00e9m os impactos da falta de acessibilidade na vida de pessoas como eu, \u00e9 importante que as produtoras de eventos e marcas estejam sens\u00edveis o suficiente para se atentarem \u00e0 quest\u00e3o \u2013 que pode passar despercebida. Em muitas das conversas que tive para escrever essa mat\u00e9ria, ouvi muito sobre a necessidade de comunica\u00e7\u00e3o e transpar\u00eancia. Como dito por Matos:<\/p>\n<p>\u201cVejo que a reclama\u00e7\u00e3o \u00e9 sobre falta de transpar\u00eancia na organiza\u00e7\u00e3o das filas preferenciais e as estruturas montadas nem sempre est\u00e3o adequadas para todos os tipos de defici\u00eancia, al\u00e9m da f\u00edsica\u201d, disse.<\/p>\n<p>Concordo com as palavras da advogada que afirma ser preciso pensar a acessibilidade para al\u00e9m das barreiras f\u00edsicas, ou seja, os eventos precisam entender que estruturas f\u00edsicas como uma \u00e1rea cercada e elevada ajudam, mas n\u00e3o trazem acessibilidade para todos os grupos da nossa comunidade.<\/p>\n<p>Quando pensamos em inclus\u00e3o, a quest\u00e3o se aprofunda porque incluir significa oferecer uma mesma experi\u00eancia para todos. \u201cAs pessoas com defici\u00eancia auditiva, m\u00faltiplas defici\u00eancias e defici\u00eancia visual tamb\u00e9m precisam de acesso que assegurem a sua seguran\u00e7a, autonomia e que possam curtir o show, j\u00e1 que o lazer \u00e9 um direito fundamental e precisa ser respeitado\u201d, comentou Matos.<\/p>\n<p>Existem empresas especializadas em consultoria de acessibilidade, como \u00e9 o caso do Vale PCD, citado por Marina Melo. \u201cSe n\u00e3o me engano, na \u00e9poca da posse (do atual mandato do presidente Lula), eles participaram para tornar o evento um pouco mais acess\u00edvel.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m acho legal lembrar que existem diversas defici\u00eancias e eu sei que n\u00e3o vamos conseguir sensibilizar 100% para todas, mas tem como adicionarmos um pouquinho de cada\u201d, afirmou a influencer carioca.<\/p>\n<p>Segundo Marina Melo, o show do Coldplay contou com uma camisa para pessoas com defici\u00eancia auditiva onde elas sentiam a vibra\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas. S\u00e3o diversos pontos para analisar, mas o importante \u00e9 se perguntar: como esse grupo pode se sentir mais inclu\u00eddo? Essa ferramenta \u00e9 efetiva?<\/p>\n<p>E claro, sempre ouvir pessoas que usariam essas ferramentas, respeitando o lugar de fala do grupo.<\/p>\n<p>Preparar a equipe, organizar o evento para receber pessoas com defici\u00eancia, capacitar a equipe da organiza\u00e7\u00e3o para saber e entender o que \u00e9 acessibilidade s\u00e3o primeiros passos necess\u00e1rios, com um n\u00famero suficiente de bombeiros e \u00e1reas PCD, por exemplo.<\/p>\n<p>Muitos podem vir com o pretexto que acessibilidade n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria quando n\u00e3o h\u00e1 pessoas com defici\u00eancia indo aos eventos para aproveitar a estrutura disponibilizada.<\/p>\n<p>Muitas das pessoas com quem conversei para fazer essa mat\u00e9ria relataram ter medo de ir a alguns eventos espec\u00edficos por falta de estrutura. Se as pessoas com defici\u00eancia, como n\u00f3s, n\u00e3o est\u00e3o ocupando e frequentando lugares, ser\u00e1 que eles foram pensados para receber todos os tipos de corpos?<\/p>\n<p>Para Victor, seria importante que os profissionais que trabalham nos eventos fossem educados para as caracter\u00edsticas e gatilhos dos comportamentos dos autistas: com entradas separadas, e um espa\u00e7o espec\u00edfico para o autista se acomodar junto ao seu acompanhante e pr\u00f3ximo a sa\u00eddas de emerg\u00eancia, para sair, caso precise, sem atrapalhar as outras pessoas \u2013 evitando situa\u00e7\u00f5es de estresse.<\/p>\n<p>\u201cComo o autista n\u00e3o tem caracter\u00edsticas f\u00edsicas, ter uma forma de identific\u00e1-los tamb\u00e9m facilita o entendimento por parte de outros participantes do evento.<\/p>\n<p>Assim n\u00e3o julgam inconveniente alguns comportamentos\u201d.<\/p>\n<p>Valentina comenta que, em um festival como o do Lollapalooza, poderia existir uma esp\u00e9cie de pr\u00e9-cadastro das pessoas com defici\u00eancia, para ajudar a mensurar o tamanho do p\u00fablico e tamb\u00e9m o que seria necess\u00e1rio oferecer como servi\u00e7o de acessibilidade.<\/p>\n<p>Parece um tanto b\u00e1sico mas o respeito \u00e9 essencial para cria\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo. Melo, a influencer carioca, comenta que tem a impress\u00e3o de que as pessoas tendem a ignorar, \u201ccomo se a gente n\u00e3o fosse parte da popula\u00e7\u00e3o, como se n\u00f3s n\u00e3o f\u00f4ssemos importantes.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental sermos vistos, respeitados e valorizados enquanto pessoas. Somos iguais a qualquer outro, somos consumidores, trabalhadorres, mas n\u00e3o somos vistos. A gente tem que gritar porque eles ainda n\u00e3o enxergam a gente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tem nada de muito complicado, pergunte, porque \u00e9 o nosso direito\u201d, afirmou Mollo. A moradora de Americana salientou que n\u00e3o \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o que custa para as organiza\u00e7\u00f5es, mas ter uma equipe preparada \u00e9 uma tarefa que exige educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse ponto tamb\u00e9m foi muito comentado pela Dra. Ramos: &#8220;Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o que vai nos tornar pessoas diferentes e \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o do todo. Da parte de ensinar o quanto mais gente, maior a diversidade dentro dos ambientes, maior o respeito que a gente vai ter, porque aprendemos a lidar com a diferen\u00e7a. Falta respeito e toler\u00e2ncia. Para mim isso \u00e9 muito importante, a educa\u00e7\u00e3o, o respeito e a toler\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p>Para Pellicer, a educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m deve contar principalmente com as pr\u00f3prias pessoas que trabalham nas \u00e1reas reservadas para PCD. \u201cAs pessoas que ficam com a gente e que trabalham com essa parte de organizar as \u00e1reas PCD, que \u00e9 um time \u00e0 parte contratado, n\u00e3o precisam discutir a nossa patologia com a gente. Defici\u00eancia n\u00e3o tem discuss\u00e3o, a minha defici\u00eancia est\u00e1 aqui\u201d, conclui ela. A fala de Valentina ecoou na minha mente por algum tempo. Apesar da invisibiliza\u00e7\u00e3o pelo preconceito, da falta de acessibilidade e dos perrengues que temos que enfrentar diariamente para ocupar os espa\u00e7os na sociedade, n\u00f3s estamos aqui.<\/p>\n<p>Editor: CLEOdoira Soares dos Santos<br \/>\nFonte:Rep\u00f3rter de ESGGraduada em Jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, entrou na EXAME como trainee do programa Imers\u00e3o EXAME em 2022 e hoje atua como Rep\u00f3rter de ESG. Atuou tamb\u00e9m nas \u00e1reas de assessoria de imprensa e social media.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CLEOdomira Soares dos Santos (Cascavel &#8211; Pr &#8211; Brazil) Pensar em inclus\u00e3o \u00e9 urgente, e os grandes eventos culturais d\u00e3o uma medida do desafio. 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