{"id":821,"date":"2023-08-31T00:42:57","date_gmt":"2023-08-31T03:42:57","guid":{"rendered":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/?p=821"},"modified":"2023-08-31T00:44:04","modified_gmt":"2023-08-31T03:44:04","slug":"a-luta-contra-o-sofrimento-mental-causado-pela-deficiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/?p=821","title":{"rendered":"A luta contra o sofrimento mental causado pela\u00a0defici\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>CLEOdomira Soares dos Santos    (Cascavel &#8211; Pr &#8211; Brazil)<\/p>\n<p>A Paralisia Cerebral, por vezes,  me afunda em um buraco no qual eu n\u00e3o gostaria de estar; mas, apesar disso, consegui ver beleza na minha cadeira de rodas.<\/p>\n<p>Quando se nasce com paralisia cerebral, \u00e9 quase imposs\u00edvel esquecer que se est\u00e1 em uma cadeira de rodas. Isso traz um estilo de vida totalmente \u00fanico, com um constante fluxo de pensamentos e sentimentos \u2013 bons ou ruins.  Ent\u00e3o, decidi escrever esse artigo em homenagem a todas aquelas pessoas que perderam sua vida nos \u00faltimos anos \u2013 para a depress\u00e3o ou suic\u00eddio. Espero com isso trazer esperan\u00e7a e ajuda \u2013 e mostrar que a defici\u00eancia \u00e9 muito mais do que os nossos olhos podem ver.<\/p>\n<p>Desde pequena, sempre soube que era diferente. Sempre tive uma sombra maior que o meu corpo, mas nunca fui capaz de olhar para ela \u2013 figurativamente e literalmente falando. Minhas pernas simplesmente n\u00e3o me suportavam em p\u00e9, e atribuo isso a minha paralisia cerebral. Gostaria de dizer que essa \u00e9 a raz\u00e3o de tudo isso, mas estaria errada e n\u00e3o seria justa.<\/p>\n<p>Eu deveria olhar para mim mesma no espelho todos os dias se eu quisesse substituir a culpa por algo que n\u00e3o gerasse esses conflitos internos. Eu n\u00e3o posso ficar culpando a minha defici\u00eancia por tudo; quando isso cria apenas pensamentos ou sentimentos,  independentemente se s\u00e3o bons ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o posso negar o fato de que a Paralisia Cerebral \u00e9 algo que existe e que, por vezes, me afunda em um buraco que eu n\u00e3o gostaria de estar. Eu percebo, tamb\u00e9m, a minha cadeira de rodas como sendo uma entidade dolorosamente bela; que possui o seu pr\u00f3prio estilo de vida e regras.<\/p>\n<p>\u00c9 um estilo de vida que nunca escolhi, mas que tornou-se o meu estilo de vida.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m internalizei o suficiente as regras do que significa ser deficiente para compensar aquilo que n\u00e3o sou capaz de fazer por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Aos 32 anos, acho que fiz um trabalho justo em aprender a como viver a vida da minha pr\u00f3pria forma.<\/p>\n<p>Mesmo assim, muitos aspectos do meu mundo f\u00edsico e externo causam um certo tumulto no meu interior. E quando todos esses elementos surgem juntos, isso realmente me abate.<\/p>\n<p>Ter PC \u2013 ou qualquer outra defici\u00eancia \u2013 \u00e9 participar tanto de um jogo mental quanto de um jogo f\u00edsico; que normalmente n\u00e3o aparece como uma leve brisa ou de forma sutil.<\/p>\n<p>\u00c9 um jogo que vem como um lutador de 100 kg  que te acerta em cheio com a m\u00e3o direita, ao menos para mim. Os alertas de que preciso encontrar caminhos alternativos para fazer certas coisas podem vir em forma de um barulho de motor de carro roncando,  do barulho dos passos quando algu\u00e9m atravessa a porta ou mesmo do barulho das chaves do carro.<\/p>\n<p>Tem dias que esses barulhos \u2013 independente do que representam \u2013 atravessam a minha pele de tal maneira que roubam a minha paz interior.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse momento que vou para o computador e come\u00e7o a escrever ou pego os fones de ouvidos para escutar m\u00fasica. Acredito que a criatividade \u00e9 salvadora, n\u00e3o importa a forma como venha.<\/p>\n<p>E  esse \u00e9 um dos poucos aspectos da minha vida que posso controlar plenamente. Escrever me d\u00e1 esse controle, bem como  disciplina para n\u00e3o perder a cabe\u00e7a em tempos dif\u00edceis.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar como a minha vida seria se eu n\u00e3o tivesse PC; j\u00e1 que essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o que conheco a minha vida inteira e seria tolice negar tal fato.<\/p>\n<p>E estaria sendo ainda mais tola ao dizer que esses fatores que geram esses conflitos internos em mim fossem algo que desaparecesse. Eu posso desejar que as pessoas n\u00e3o dirijam seus carros, n\u00e3o fa\u00e7am barulho ao abrir a porta ou ao balan\u00e7ar as chaves.<\/p>\n<p>No final do dia, contudo, isso n\u00e3o seria real  n\u00e3o seria justo. Cresci em uma casa muita agitada, com pessoas saindo e entrando o tempo inteiro; e acabei me acostumei com certos sons na casa, pois eles representam a localiza\u00e7\u00e3o de onde est\u00e3o meus pais e meus irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Como na maior parte do tempo eu fico na cama, posso contar quantos segundos ou minutos leva para eu escutar a porta fechando ou passos subindo as escadas. Isso me faz me sentir segura de muitas formas.<\/p>\n<p>Escutar esses sons cuidadosamente e conscientemente ano ap\u00f3s ano me tornou autoconfiante em v\u00e1rios aspectos. Talvez mais relutante, embora, isso me force a ter mais paci\u00eancia do que eu gostaria de ter.<\/p>\n<p>O fato isolado corta a minha alma como uma faca quente, mas tudo isso me faz perceber que os barulhos que n\u00e3o gosto s\u00e3o necess\u00e1rios para a minha fam\u00edlia \u2013 e para outros \u2013 viverem a sua vida.  N\u00e3o quer dizer que isso torne as coisas mais f\u00e1ceis para mim.<\/p>\n<p>Eu ainda vivo na casa e ainda escuto muitos dos barulhos que cresci ouvindo. Eles me afundam um pouco mais em um buraco agora que sou adulta. Eu deito na cama, escutando com aprecia\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o, mas isso n\u00e3o muda o fato de eu ter PC.<\/p>\n<p>De fato, geralmente isso torna as coisas mais pesadas pra mim, pois sei que n\u00e3o importa o eu fa\u00e7a, n\u00e3o conseguirei fazer a minha defici\u00eancia desaparecer.<\/p>\n<p>E tenho que lidar com isso \u2013 e com todos os seus aspectos emocionais \u2013 todos os dias e todas as noites da minha vida at\u00e9 eu morrer.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a \u00fanica coisa que admito ter que lutar para viver em paz, j\u00e1 que \u00e9 o aspecto mais dif\u00edcil para eu aceitar.  Ironicamente, entretanto, digo a mim mesma que est\u00e1 tudo bem sentar em uma cadeira de rodas durante 10 horas ou mais por dia.<\/p>\n<p>\u00c9 muito f\u00e1cil para mim dizer \u201d eu tenho defici\u00eancia\u201d ou \u201d minha vida \u00e9 mais dif\u00edcil por causa disso\u201c.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um fato que n\u00e3o posso esconder ou disfar\u00e7ar. Nem que eu tente, j\u00e1 que todo mundo pode ver a minha cadeira de rodas ou a lentid\u00e3o com que fa\u00e7o alguns movimentos.<\/p>\n<p>Mesmo assim, creio que muitas pessoas n\u00e3o saibam ou n\u00e3o entendam o peso emocional dessas afirma\u00e7\u00f5es \u2013 a menos que tenham alguma defici\u00eancia ou cuidem de algu\u00e9m nessas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de ignor\u00e2ncia ou intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Trata-se, na verdade, de fazer uma escolha consciente que n\u00e3o todo mundo vive nas mesmas circunst\u00e2ncias que eu e, por isso, nem todo mundo precisa pensar sobre os aspectos que envolvem uma defici\u00eancia. Dessa forma,  tenho a responsabilidade de conscientizar e educar as pessoas sobre defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Minha carreira como escritora me deu suporte para isso. Estaria mentindo se dissesse que escrever n\u00e3o \u00e9 o que me mant\u00e9m com os p\u00e9s no ch\u00e3o e s\u00e3.<\/p>\n<p>Na verdade, \u00e9 bem poss\u00edvel que essa seja a ferramenta que mant\u00e9m meus dem\u00f4nios longe. N\u00e3o tenho certeza de que me sentiria confort\u00e1vel escrevendo sobre algo t\u00e3o pessoal se a criatividade n\u00e3o me impulsionasse. Escrever, por exemplo, esse artigo me faz pensar de forma diferente \u2013 e at\u00e9 de considerar como ajudar a mim mesma.<\/p>\n<p>Espero que a leitura desse artigo possa ajudar todos aqueles que est\u00e3o enfrentando uma batalha \u2013 independentemente se \u00e9 em decorr\u00eancia de uma defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m est\u00e1 imune a sentir o peso das batalhas da vida, mas todo mundo merece a chance de se libertar das suas amarras. \u00c9 s\u00f3 uma quest\u00e3o do qu\u00e3o longe uma pessoa deseja ir para alcan\u00e7ar a liberdade \u2013 e o que isso realmente representa.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: CLEOdomira Soares dos Santos<br \/>\nFonte: Tradu\u00e7\u00e3o livre do texto \u201d Wrestling With The Mental Distress Of Disability\u201d de Erin Kelly\/Internet<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o livre do texto \u201d Wrestling With The Mental Distress Of Disability\u201d de Erin Kelly<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CLEOdomira Soares dos Santos (Cascavel &#8211; Pr &#8211; Brazil) A Paralisia Cerebral, por vezes, me afunda em um buraco no qual eu n\u00e3o gostaria de estar; mas, apesar disso, consegui ver beleza na minha cadeira de rodas. 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