{"id":978,"date":"2023-09-30T05:25:39","date_gmt":"2023-09-30T08:25:39","guid":{"rendered":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/?p=978"},"modified":"2023-09-30T05:25:41","modified_gmt":"2023-09-30T08:25:41","slug":"ouvintismo-e-o-preconceito-contra-as-pessoas-surdas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/?p=978","title":{"rendered":"Ouvintismo e o preconceito contra as pessoas surdas"},"content":{"rendered":"<p>CLEOdomira Soares dos Santos               (Cascavel Pr Brazil)<\/p>\n<p>Infelizmente, o preconceito ainda \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o muito presente no nosso dia a dia. Ele existe de v\u00e1rias formas, oprimindo e ofendendo diversos grupos, como as mulheres, pessoas negras, membros da comunidade LGBTQIAPN+, pessoas com defici\u00eancia e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Hoje, vamos te explicar um pouquinho mais sobre o preconceito contra as pessoas surdas, tamb\u00e9m conhecido como ouvintismo ou tamb\u00e9m audismo, por\u00e9m o primeiro termo \u00e9 o mais utilizado<\/p>\n<p>Se antes de continuar a leitura voc\u00ea queira conhecer mais sobre a comunidade surda, separamos 5 fatos que voc\u00ea deveria saber sobre ela, para come\u00e7ar a desconstruir alguns preconceitos que talvez voc\u00ea nem imaginava que tivesse.<\/p>\n<p>Afinal, o que \u00e9 ouvintismo?<\/p>\n<p>Para entender o conceito de ouvintismo, precisamos partir da no\u00e7\u00e3o de que o mundo foi constru\u00eddo por e para pessoas ouvintes. Nesse cen\u00e1rio, \u00e9 como se pessoas surdas e com defici\u00eancias auditivas n\u00e3o fossem consideradas por suas identidades, como se enxergam dentro da comunidade, e sim entendidas como \u201cn\u00e3o-ouvintes\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 como se elas estivessem erradas ou fossem inferiores por n\u00e3o ouvirem. O ouvintismo entende o mundo a partir da percep\u00e7\u00e3o da pessoa ouvinte, e de como ela encara as situa\u00e7\u00f5es e ambientes ao seu redor.<\/p>\n<p>Nessa l\u00f3gica, a pessoa surda \u00e9 o elemento que n\u00e3o se encaixa, que est\u00e1 fora do padr\u00e3o socialmente aceito.<\/p>\n<p>Sendo assim, precisam a qualquer custo se tornarem ouvintes em potencial, passando pelo processo da oraliza\u00e7\u00e3o, aprendendo leitura labial e se adequando \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p>Ser ouvinte passou a ser sin\u00f4nimo de ser normal. Esse padr\u00e3o que temos na sociedade hoje, faz com que muitas pessoas com defici\u00eancia auditiva sejam negadas de se perceberem e se afirmarem positivamente como parte da comunidade surda.<\/p>\n<p>Essa constru\u00e7\u00e3o sociocultural acaba criando um ambiente muito dif\u00edcil de exclus\u00e3o, rejei\u00e7\u00e3o e invisibilidade das pessoas surdas. Inclusive, o ouvintismo chega at\u00e9 a priv\u00e1-las da sua l\u00edngua, que \u00e9 um peda\u00e7o gigantesco da sua identidade e cultura.<\/p>\n<p>Entendendo sobre o privil\u00e9gio ouvinte<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabia que as L\u00ednguas de Sinais, na sua maioria usadas pela comunidade surda para se comunicar, foram proibidas em 1880? Esse \u00e9 s\u00f3 um exemplo de v\u00e1rias das priva\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas que as pessoas surdas sofrem no dia a dia. Pensando nisso, \u00e9 n\u00edtido que as pessoas ouvintes v\u00e3o usufruir de mais privil\u00e9gios, j\u00e1 que n\u00e3o possuem tantas barreiras para enfrentar o tempo inteiro.<\/p>\n<p>Um bom exemplo para voc\u00ea entender como esses privil\u00e9gios funcionam na realidade, \u00e9 a pr\u00e1tica de cripface.<\/p>\n<p>Esse termo surgiu nos Estados Unidos, unindo as palavras crippled (deficiente) e face (rosto).<\/p>\n<p>Ele \u00e9 muito presente na ind\u00fastria audiovisual e do entretenimento, quando atores sem defici\u00eancia interpretam personagens com defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 um grande problema, porque acaba retratando as pessoas dessa comunidade de forma ofensiva e capacitista. Al\u00e9m do que, o pr\u00f3prio fato de n\u00e3o contratar atores com defici\u00eancias para essas produ\u00e7\u00f5es j\u00e1 \u00e9 um ato capacitista em si, porque \u00e9 baseado na ideia de que eles n\u00e3o s\u00e3o capazes de dar conta desse tipo de trabalho.<\/p>\n<p>S\u00e3o in\u00fameras as vezes em que pessoas ouvintes ocupam indevidamente os espa\u00e7os das pessoas surdas, principalmente no ambiente de trabalho. Em lugares em que a oferta de emprego j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 grande, elas ainda s\u00e3o prejudicadas a favor do privil\u00e9gio ouvinte.<\/p>\n<p>Um dos casos mais frequentes acontece para vagas de int\u00e9rpretes ou professores de Libras (L\u00edngua Brasileira de Sinais). As organiza\u00e7\u00f5es preferem contratar pessoas ouvintes, porque acreditam que elas v\u00e3o conseguir se comunicar melhor com o restante do p\u00fablico, tamb\u00e9m ouvinte. Elas fazem isso ao inv\u00e9s de escolher pessoas surdas, que muitas vezes t\u00eam sua cultura e identidades baseadas na Libras.<\/p>\n<p>Recentemente, tamb\u00e9m veio \u00e0 tona a express\u00e3o deaf money, mas o que isso significa? Assim como com tantos outros grupos, as empresas se aproveitam das pessoas surdas para lucrar em cima delas, sem realmente estarem preocupadas com as causas defendidas por essa comunidade.<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum, por exemplo, encontrarmos cursos de Libras oferecidos por pessoas ouvintes, com a promessa de flu\u00eancia no idioma em tempo recorde, e ainda cobrando pre\u00e7os abusivos. As pessoas por tr\u00e1s de a\u00e7\u00f5es desse tipo apenas usam as pessoas surdas como estrat\u00e9gia para ganhar dinheiro e fama, sem estarem envolvidas com a comunidade, ou a apoiarem.<\/p>\n<p>Por conta disso, foi criado o lema \u201cNada sobre n\u00f3s, sem n\u00f3s\u201d, que defende a presen\u00e7a das pessoas surdas e com outras defici\u00eancias nos espa\u00e7os que pertencem \u00e0 elas. Se estamos tratando de algo sobre elas, por que exclu\u00ed-las?<\/p>\n<p>As situa\u00e7\u00f5es em que observamos o privil\u00e9gio ouvinte s\u00e3o bastante frequentes. Ainda, as dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o para pessoas surdas se tornam praticamente inevit\u00e1veis em um mundo que s\u00f3 aceita ser ouvinte.<\/p>\n<p>Acontece quando uma pessoa surda, que se comunica principalmente em Libras, precisa ir ao hospital, \u00e0 delegacia, a uma loja, \u00e0 escola, ou at\u00e9 em rodovi\u00e1rias e aeroportos, em que os an\u00fancios s\u00e3o normalmente apenas sonoros.<\/p>\n<p>Voc\u00ea percebe como o privil\u00e9gio ouvinte pode tirar a liberdade e autonomia de quem faz parte da comunidade surda?<\/p>\n<p>O preconceito lingu\u00edstico sofrido pelas pessoas surdas<\/p>\n<p>Bom, a ideia de preconceito voc\u00ea j\u00e1 conhece, mas sabe dizer no que consiste o preconceito lingu\u00edstico? Basicamente, \u00e9 uma forma de discrimina\u00e7\u00e3o social pautada em julgar as pessoas pelo jeito como elas se comunicam.<\/p>\n<p>Isso pode acontecer tanto pela outra pessoa usar termos que voc\u00ea acha que s\u00e3o errados ou indevidos, por ela n\u00e3o dominar bem o idioma em que est\u00e1 falando, ou simplesmente por se comunicar em outra l\u00edngua diferente da sua.<\/p>\n<p>Por exemplo, dentro do Brasil, pessoas nordestinas costumam sofrer muito com esse tipo de preconceito. Elas s\u00e3o xingadas e ofendidas apenas por possu\u00edrem um sotaque marcante e linguagem diferente do resto do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esse tamb\u00e9m \u00e9 um fen\u00f4meno que acontece bastante com pessoas surdas sinalizantes, que no Brasil, falam principalmente Libras.<\/p>\n<p>Como elas n\u00e3o dominam bem o portugu\u00eas, s\u00e3o vistas como inferiores, incompletas, incompetentes, burras, e tantas outras no\u00e7\u00f5es negativas que nascem desse preconceito.<\/p>\n<p>Ainda, as pessoas surdas, e tamb\u00e9m pessoas com outras defici\u00eancias, sofrem do capacitismo lingu\u00edstico.<\/p>\n<p>Isso acontece quando as pessoas usam jarg\u00f5es ou ditados capacitistas, que funcionam quase como g\u00edrias.<\/p>\n<p>Essas express\u00f5es v\u00e3o ganhando popularidade dentro da sociedade, mesmo que \u00e0s vezes as pessoas n\u00e3o entendam bem o significado por tr\u00e1s das palavras, e usem esses termos sem muita consci\u00eancia.<br \/>\nSer\u00e1 que o que eu estou falando \u00e9 capacitista?<\/p>\n<p>Esse tipo de linguagem capacitista incentiva uma cultura de exclus\u00e3o que s\u00f3 se fortalece. Mais uma vez, percebemos os reflexos da cultura de ouvintismo em que vivemos, inferiorizando as pessoas surdas.<\/p>\n<p>Para garantir que a gente n\u00e3o continue repetindo esses termos preconceituosos, separamos algumas express\u00f5es capacitistas que voc\u00ea n\u00e3o deve nunca mais usar:<\/p>\n<p>Conversa de surdos: normalmente, essa express\u00e3o \u00e9 usada quando as pessoas que est\u00e3o conversando n\u00e3o conseguem se entender.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vamos refor\u00e7ar, as pessoas surdas conseguem se comunicar muito bem.<\/p>\n<p>A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que fazem isso em uma l\u00edngua que n\u00e3o \u00e9 muito aceita pelas pessoas ouvintes.<\/p>\n<p>Se fazer de surdo: quando algu\u00e9m ouve algo, e prefere ignorar ou n\u00e3o dar aten\u00e7\u00e3o a essa informa\u00e7\u00e3o, as pessoas dizem que ele est\u00e1 se \u201cfazendo de surdo\u201d.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 mostra o preconceito contra as pessoas surdas, que t\u00eam sua defici\u00eancia auditiva associada a ignor\u00e2ncia intencional.<\/p>\n<p>Achei que voc\u00ea era normal, n\u00e3o tem cara de surda: como falamos ali em cima, pessoas ouvintes se tornaram sin\u00f4nimo de normalidade.<\/p>\n<p>Logo, nessa l\u00f3gica, pessoas surdas s\u00e3o anormais e est\u00e3o erradas. Al\u00e9m do que, n\u00e3o existe uma \u201ccara de surda\u201d. Isso \u00e9 apenas um estere\u00f3tipo preconceituoso colocado nelas.<\/p>\n<p>Voc\u00ea nem parece que \u00e9 surda, at\u00e9 sabe falar: novamente, essa \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de uma no\u00e7\u00e3o errada da surdez.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas com defici\u00eancia auditiva possui a fala, mas na maioria das vezes n\u00e3o a utiliza, por preferir se comunicar em L\u00ednguas de Sinais. Ou seja, o termo surdo-mudo, ou chamar algu\u00e9m de mudinho, tamb\u00e9m est\u00e1 errado.<\/p>\n<p>\u00c9 melhor ser surdo do que ouvir isso: quando algu\u00e9m reproduz essa express\u00e3o, refor\u00e7a a ideia de que a surdez \u00e9 um fator limitante e degradante na vida de uma pessoa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, ajuda a fortalecer o ouvintismo, pensando que pessoas ouvintes s\u00e3o superiores \u00e0s pessoas surdas e com defici\u00eancia auditiva.<\/p>\n<p>O ouvintismo parece estar em todo lugar, mas agora que voc\u00ea j\u00e1 entende mais desse tema, \u00e9 seu papel agir contra esses preconceitos contra a comunidade surda. Um \u00f3timo primeiro passo \u00e9 come\u00e7ar a aprender Libras, trabalhando pela inclus\u00e3o das pessoas surdas no nosso dia a dia.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode fazer isso agora mesmo, com o Hand Talk App, um aplicativo gratuito de tradu\u00e7\u00f5es autom\u00e1ticas em L\u00ednguas de Sinais.<\/p>\n<p>Edi\u00e7ao: CLEOdomira Soares dos Santos<br \/>\nFonte: Blog Acessibilidade \/Se quiser se aprofundar mais no tema de ouvintismo e preconceitos lingu\u00edsticos, deixamos aqui algumas recomenda\u00e7\u00f5es de pesquisadoras surdas para te ajudar, como Gladis Perlin, Karin Strobel e Shirley Vilhalva<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CLEOdomira Soares dos Santos (Cascavel Pr Brazil) Infelizmente, o preconceito ainda \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o muito presente no nosso dia a dia. Ele existe de v\u00e1rias formas, oprimindo e ofendendo diversos grupos, como as mulheres, pessoas negras, membros da comunidade LGBTQIAPN+, &hellip; <a href=\"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/?p=978\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30],"tags":[],"class_list":["post-978","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-surdez"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=978"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/978\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":979,"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/978\/revisions\/979"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/grupogsd.com.br\/blog\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}